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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"O menino que contemplava"

Menino Contempla-os-sons, merecedor do seu nome, um dia sem contempla-los, tal coisa era impossível.
Uma criança admirável, de olhos fechados, abria o seu tão curioso dom auditivo  e voava sempre junto de uma imaginação só sua, mas só sua, pois de tantos meninos, sabia ser o  único que a entendeu, que entendeu o valor de voar para onde queria e quando queria, de navegar pelos mais belos oceanos, de escalar majestosas montanhas... um menino feliz.
 Tão feliz consigo mesmo, não o aparentava ser, enquanto os restantes brincavam entre todos, o menino feliz, sempre no seu canto, travando as mais grandiosas batalhas com dragões enormes, mostrando-se bravo perante as donzelas... aos olhos vulgares, parecia apenas um menino triste e envergonhado no seu canto.
 Certo dia, uma bola cai junto de Contempla-os-sons, todas as crianças que jogavam param para ver a sua reacção, o que iria ele fazer, será que iria chutar a bola? Será que pegava na bola e a traria até eles ? Passou-se bastante tempo, e ele não mostrou qualquer reacção, ninguém entendia, porque?
 Passaram-se dias e dias, e mesmo não sendo propositadamente, todos em redor esqueceram-se do Contempla-os-sons, todos a excepção de Redopia e o mesmo decide ir falar com o Contempla-os-sons.
 - Olá... - diz Redopia com um sorriso de orelha a orelha.
Contempla-os-sons, embora quisesse responder, as palavras não saiam dado as nervos, afinal, nunca nenhum menino falara com ele.
- Não te preocupes. - disse Redopia num tom muito amável.-Sabes, eles gostam de ti, só não sabem como falar contigo...
Contempla, não percebia, porque era tão difícil para os outros meninos falarem com ele? Redopia continuava:
- Eu sei, é bom fechar os olhos e esquecermos-nos de tudo, partir para outro lado, e brincar-mos com dragões e tudo, é fantástico ....
Contempla-os-sons, que antes não conseguira falar, num ápice pergunta-lhe:
- Também consegues fazer isso!? - perguntava Contempla. Para ele era uma noticia estrondosa, pois julgava ser o único capaz de fechar os olhos, ouvir os sons, e ver o que mais ninguém via.
- Sim, sabes, somos muito parecidos, eu também me sentava no meu canto, a imaginar, mas também gostava de ir brincar com eles, até ao dia em que ganhei coragem e fui, sabes, é bom ouvir e voar, mas tu, tens que viver com tudo o que tens, eu não posso abrir os olhos de novo, fiquei cego à uns tempos, a minha mãe diz-me que nunca mais vou conseguir ver de novo, mas eu abraço-a para que não fique triste, e digo que não faz mal, eu continuo a viver a vida de olhos abertos, sempre a brincar com eles, e sempre com o meu tempo para fechar os olhos e voar ...  - após Rodopia dizer isto, ambos permaneceram calados até que Rodopia diz:
-Vamos? - diz Rodopia esticando a mão a Contempla para irem brincar.
-Sim... - Contempla dá-lhe a mão, com medo, abre os olhos devagar, e caminha em pé de igualdade com Rodopia até junto dos restantes meninos.
Menino Contempla-os-sons, embora feliz com o seu contemplar, já lhe era possível passar dias sem fazê-lo e apenas com os restantes meninos brincar, mas todos os dias, antes de ir brincar, Contempla fecha os olhos juntamente com Rodopia, e os dois, voam junto dos sons tão próprios das suas aventuras pelo imaginário.