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quinta-feira, 5 de abril de 2012

" Da meia-noite à madrugada"

Percorro a ruela, está realmente uma noite agradável, caminhar e saborear esta brisa passageira, com um calor estonteante como este, é sem duvida algo que merece um momento de atenção. Continuo rua a baixo, mas sempre com muita calma, afinal a pressa é para aqueles, que com as melhores das intenções, de tudo fazem para nos pedir emprestado os tostões, digo pedir emprestado porque para senhores de tão alto gabarito roubar é uma palavra menos sofisticada!  Ora rua abaixo, gente tão diferente de ponto em ponto, no entanto tão vulgar, mas não pensem que me considero especial, não, se tiver algo de especial talvez seja o jeito de regurgitar palavras misturadas em sentimentos como ali o embriagado entre o banco e o canteiro regurgita o ordenado todo, o mesmo, que seria de louvar que fosse para algo mais, que não as tascas amontoadas ao longo do caminho. Pois vem agora o guarda reclamar com a paz de alma que não faz mal a ninguém, a não ser a ele mesmo, mas ninguém precisa de saber disso, mas o senhor guarda, que mais não faz sem ser ajudar o próximo, ajuda o pingado a deslocar-se ao posto na qual lhe atira com água para o corpo e cara para ver se acorda, e talvez com o susto não volte a beber ! Eu sigo a minha vida e como seria de esperar, ruela a baixo, aproveito que está calor e porque não, ora um belo sumo de cevada mas só um, não vá acontecer, aparecer um guarda samaritano para me ajudar mais tarde ! Sentado na esplanada de charuto na mão e a meu lado o sumo de cevada, deparo-me com duas raparigas, uma chorava enquanto a outra a consolava, não sou intrometido nem nada que se pareça, mas pelo que percebi, a coitada após fortes caricias de amor e festas na nuca, veio a rua arejar, afinal, está uma noite tão quente que nem a visita à janela ou varanda ajuda! Levanto-me da cadeira, enfim, quase que obrigado porque a vontade não era muita, sigo o meu destino e já perto da minha casa, a minha vizinha do nono esquerdo junto à minha vizinha do sétimo direito no banco do jardim, pareceu-me a mim, a segredarem algo uma à outra, quando passa a porteira, dona Zulmira, uma coisa enorme e não se deixem enganar, um peso bruto, gritava baboseiras de todos os tamanhos e feitios, disse aqui para os meus botões, as malandras ali no banco devem ter feito uma basbaqueira como da outra vez na porta do prédio, segui caminho até casa e ao chegar à porta é que percebo, que tinha deixado a chave lá, em cima da mesa da cozinha, lá em casa do João, junto das garrafas do vinho do porto vazias e do dominó espalhado ! Agora ao sair da porta passa por mim de novo a dona Zulmira, um bicho enormemente enorme, novamente a dizer baboseiras mas desta vez para os seus botões, as moças choravam lá no banco,  mais em frente ao olhar para uma casa da ruela, vejo a jovem que chorava lá na tasca, sorrateiramente a entrar em casa como um gato para não acordar o dono, a seguir passo pelo o posto e vejo o cavalheiro embriagado, que já nem estava tanto assim, a queixar-se das cicatrizes da ressaca, chegando a casa do João numa respiração ofegante pois nem tinha parado para sentir a brisa, disse assim para ele, gosto muito da noite, mas já estou velho para entender a madrugada !