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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"Sombras"

Ganhei a percepção da realidade, vivo rodeado de sombras, o quão tristes são, todas perdidas sem rumo, todas vagueando pela vida até tombarem para a morte, como conseguem viver? Como têm gosto em fazê-lo? Como fui eu uma sombra?
De sombra materializei-me a objecto, deixei de depender de uma fonte de luz, facilidade não foi sinónimo da situação, mas no entanto, passei a existir e não a depender do existente.
Existo, sou, sei o que sou, mas sou utensílio de mãos que para mim serão sempre estranhas, que apenas me usam e de seguida me descartam, concluo que afinal de contas, não difiro assim tanto de quando era sombra.
Ganho forças, liberto-me de mãos estranhas, e de objecto, entro numa metamorfose, que me torna um ser, livre de uma luz que me dite a vida e de mãos que se aproveitam de mim, sou ser, sinto que o sou, e percorro a vida a uma velocidade estonteante.
Reparo hoje que sou único, as sombras conformam-se em ser vulgares, os objectos também, mas eu, o que sou eu? Eu entendo ser um ser que depende afinal da vida…
Então percebo, a luta persistente de me melhorar a mim mesmo, fez de mim algo de que me orgulho, vi que a luz afinal não era assim tão brilhante, que quem comanda as mãos estranhas me estranhou a mim, que sou ser, e ao sê-lo, dependerei sempre da vida, até que ela me entregue à morte.
Mas orgulho-me de dizer que dependo apenas da soberba vida que é a matrona do existir, vou evoluindo até que me permita e eu permito que ela me guie, juntos até ao final, companheiros um do outro, apenas nos despedimos ao confrontarmos a matura e sapiente morte.
Sombras que se deixam guiar por uma luz que não brilha tanto afinal, vão enfrentar uma escuridão tenebrosa, pois a luz, também controlada pela matrona vida, um dia, tem o seu fim.